Da minha janela vejo árvores, muitas árvores. Na rua passam bicicletas, pessoas descansadas com carrinhos de bebé, miúdos que vão para a escola em frente. Na rua onde moro é raro ouvir um carro a apitar, os vizinhos não discutem, consigo dormir de tarde com a janela aberta. Ninguém diria que moro numa das capitais mais agitadas do mundo. De manhã fui trabalhar, levantei-me nas calmas, li o jornal que recebo de graça enquanto tomava o pequeno-almoço, fumei o meu cigarro e preparei-me lentamente para sair. Sem pressas, não tenho que conduzir. O metro é já à porta, não há atrasos, não há filas. Na mala um livro para ler. Depois do trabalho não venho logo para casa. Apesar de ter de escrever este texto. O tempo está bom, o sol convida, procuro uma esplanada próxima e como qualquer coisa enquanto aproveito o sol. Daqui a nada vem aí o Inverno. Venho de um país com sol, mas sinto falta dele como todos os alemães. Agora. Porque quando cá cheguei, no Verão, era-me indiferente ficar em casa num dia de sol. Estava-lhe tão habituada que não sentia a sua presença. Até que me ensinaram a amar o sol. A dar-lhe a importância devida e a misturar-me nas esplanadas de Weinbergsweg e da Kastananienallee, atrasando o tempo ao ritmo do meu Latte Machiato. Antes paro na Alexanderplatz, circulo por entre a multidão e sento-me nos degraus sujos a olhar as pessoas e a ouvir os músicos de rua. Se fechar os olhos pensarei que estou noutro sítio. Talvez em Lisboa. Talvez em Londres. Mas este cheiro a Bratwurst ao meu lado não me deixa viajar para muito longe. E ainda bem. Gosto de sonhar com o que tenho e me faz feliz. Quando cheguei a Berlim não foi logo assim. A cidade era grande demais, a língua era tão forte que me deixava exausta ao fim do dia, andar de bicicleta por entre carros e pessoas um desafio, os bares com areia ao longo do rio um tentativa ridícula de inventar uma praia numa cidade tão longe do oceano. Mas à medida que comecei a orientar-me por ruas e hábitos, a conhecer cafés e pessoas, quando a língua deixou de ser uma barreira, as coisas começaram a ser-me familiares, a fazer parte do meu novo dia-a-dia. Substituí os bifes pelo sushi, o carro pela bicicleta, deixei de beber café como escape ao stress rotineiro e passei a fazê-lo como parte de uma atitude social. Substituí a discoteca Incógnito pela mobilidade dos Karrera Klub e agora nem preciso de conduzir 40 Km depois de uma noite longa. Vou a pé para casa. Paro à porta para me despedir do meu amigo Manuel que mora uns prédios mais acima. Às vezes vamos a um turco matar a fome adiada. Ele mete-se connosco, pergunta-nos de onde somos e diz-nos que em turco Portugal significa laranja. Agradecemos e dizemos tschüss, até à próxima. Como se já nos conhecêssemos há muito tempo. A ele e à senhora da padaria que me diz sempre adeus e me deseja um bom dia. Eu nem sei o nome dela, mas ela diz-me sempre adeus. Às vezes tenho a impressão de que estou na aldeia onde fui criada, no interior quente de Portugal, onde as pessoas se conhecem umas às outras e se param à porta para ver passar os carros. Recordo-me de uma entrevista que li uma vez sobre uma banda islandesa que se instalou em Berlim por ser uma das poucas capitais onde ainda se pode respirar. Concordo com eles. No meio de uma vida cultural tão agitada, de ter escolher entre tantas hipóteses, das viagens que se podem fazer a partir do centro da Europa, ainda tenho tempo para respirar a calma de uma cidade que não quer que lhe sejamos indiferentes, que nos puxa para os seus cafés, as suas galerias, as suas Veranstaltungen. Talvez Berlim seja um caso especial. Há quem diga que Berlim não é Alemanha. Disso já não percebo nada. Só percebo daquilo que sinto aqui e do que vou sentir falta quando me for embora. Se. Este texto não é sobre as diferenças entre Portugal e a Alemanha. Nem sobre mim, nem sobre Berlim, mas sim sobre mim em Berlim. Sobre como me adaptei a uma cultura que não é a minha, mas que agora me pertence. No sentido de estar presente em todos os cantos da minha rotina, de me cercar de tal maneira que não me deixa mais nenhuma alternativa senão adaptar-me. E era o que mais faltava. Não me adaptar. Quando para cá vim, inventei os três As, as três regras obrigatórias para todos os nómadas deste mundo. As três condições base para se entrar num país. Os capítulos principais do guia do imigrante. Que ainda haviam de inventar. Um guia que nos ensinasse a viver entre dois mundos, sem esquecer um e sem recusar o outro, que nos ensinasse a Aceitar, Assimilar, Adoptar. Compreender para ser compreendido, dar para receber, sorrir para nos sorrirem de volta. Dei-me bem com estas regras. Fui-me adaptando. Mas não, ao contrário do que possa parecer, não me "alemanizei". Nem sempre é fácil deslocar-me entre dois mundos, conseguir separar as línguas e as culturas. Há quem consiga. Há quem não se importe de adiar as suas raízes. Quanto a mim, gosto de ter saudades, e por vezes gosto de chamar as recordações e de viver delas. Preciso de, dentro de casa, sentir a minha cultura. Às vezes junto-me com outros portugueses, cozinhamos petiscos da nossa terra, falamos sobre o que lá se passa. Falamos de nós aqui, da Lisboa sem nós, de como Berlim com o Chiado, o mar e as castanhas assadas seria a cidade paradisíaca. E reconhecemos que, se algum dia nos perdermos, teremos sempre a Fernsehturm para nos guiar. Até à nossa casa que é já aqui tão perto. Monia Filipe, Lisboa/Berlim